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Brasília, 12/6/09 (NEAD) – Em espaços em que o rural está instituído, o diálogo e a proposta de uma formação relacional põem imagens em movimento, dando vida a um camponês imaginado. Imbuído desta intenção, orientada pelo diálogo de saberes, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Pronera/Incra), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), realiza o Programa Residência Agrária.
Com o objetivo de registrar e refletir sobre as experiências do Programa, o Pronera acaba de lançar, ao lado do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (NEAD/MDA), o livro “Educação do Campo e Formação Profissional: A Experiência do Programa Residência Agrária”. O lançamento aconteceu no dia 03 de junho, durante a IV Jornada de Estudos em Assentamentos Rurais, em Campinas (SP).
A publicação foi desenvolvida no âmbito do Projeto de Cooperação Técnica (PCT) entre o MDA e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) - Apoio às Políticas e à Participação Social no Desenvolvimento Rural Sustentável.
O livro, enquanto maneira de sistematizar as experiências do Residência Agrária, foi organizado em cinco capítulos: Gênese do Programa Residência Agrária, Matriz Regional, Matrizes Locais, Relatos de Experiências e Reflexões/Análises. A proposta foi registrar a experiência do projeto-piloto nas diferentes fases de execução e também as concepções do Residência Agrária e suas ressignificações.
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Programa Residência Agrária
O “Programa Nacional de Educação do Campo: Formação de Estudantes e Qualificação de Profissionais para Assistência Técnica”, criado em meados de 2004, tinha como objetivo a formação técnica de jovens rurais. A proposta do curso foi ampliada quando novos parceiros, como universidades, passaram a integrar suas ações e o programa passou a intitular-se Residência Agrária. Propunha-se estabelecer um diálogo entre estudantes universitários e os assentamentos. Segundo a coordenadora nacional do Pronera, Clarice dos Santos, o objetivo é “inserir estudantes na realidade da agricultura familiar, articulando compromissos com essa realidade”.
“A ideia do livro é tornar públicas as experiências [do Residência Agrária] e, mais do que isso, ele serve como base para discussão técnica, para provocar o debate sobre essas novas formas de desenvolvimento rural”, diz Clarice. A formação, que no início focava estudantes de Ciências Agrárias, estendeu-se a assentados, técnicos de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), além de graduações de outras áreas do conhecimento como Educação, Saúde, Engenharia, Arquitetura, Geografia, História e Ciências Sociais. Neste intercurso de ideias e formações recria-se a concepção de Ater, contribuindo, como afirma Clarice, “para uma nova cartografia social dos assentamentos”.
O curso funciona nos moldes de uma especialização e é realizado em quatro etapas, tendo a duração de dois anos. A primeira parte do Programa é desenvolvida por cada instituição de ensino e a segunda, em rede, somando parceiros além das próprias universidades. O principal diferencial do curso são os estágios de vivência e a proposta de se construir um trabalho de conclusão realizado a partir da experiência vivida. Desta maneira o curso divide-se em Tempo Comunidade e Tempo Escola.
Redistribuições: renda, terra e conhecimento
Para Mônica Molina, uma das organizadoras do livro, a publicação marca a luta por redistribuição de renda, terra, poder e também de conhecimento. “O campo é espaço de vida, de produção de relações sociais, de produção de história, cultura e conhecimento, de luta e resistência dos sujeitos que nela vivem. As mudanças nos modelos de desenvolvimento indicam, assim, novas concepções na educação do campo, em um diálogo que engloba técnicos, estudantes e agricultores”.
Os objetivos da publicação, conforme Mônica, são, primeiramente, registrar as experiências do projeto, propondo sua sistematização com a intenção de subsidiar a continuidade da iniciativa. No âmbito acadêmico, o livro tem o propósito de promover novas formas de se pensar a formação dos profissionais das Ciências Agrárias, a partir de outra matriz tecnológica. “Ao se deparar com a realidade, eles têm que repensar os currículos, não só do ponto de vista do conteúdo, mas também a maneira como eles serão trabalhados”, afirma a pesquisadora, que também é docente na Universidade de Brasília (UnB). Para a professora, a experiência enriquece, pois articula saberes do campo a partir dessas interrelações, e muda a maneira de disponibilizar os conteúdos.
Ao comentar sobre as diferenças na formação de estudantes egressos da urbe e aqueles que vivem no campo, Mônica afirma que a perspectiva é a construção da autonomia dos educandos. “Em ambos os casos o principal é estimular que ele busque sempre novos conhecimentos”. O caminho apontado por essas experiências é aquele que articula práticas ao conhecimento. “A ideia é romper essa fragmentação das ciências”. É grande o potencial da territorialidade rural, e pensá-lo é rever as formas de desenvolvimento também dos coletivos urbanos. “O campo não é um problema dos trabalhadores rurais, é um problema da sociedade brasileira”, argumenta a pesquisadora.
Os extensionistas e seus papéis
Nos relatos sobre as experiências de estudantes nos cursos do Programa Residência Agrária, vários são os conflitos expostos em uma formação relacional, que tem como princípio o diálogo entre universos diferentes do saber. A visão romântica do campo se desfaz quando estudantes se deparam com a realidade. Desta maneira, só é possível construir relações em uma nova perspectiva da assistência técnica.
Os extensionistas que, tradicionalmente, eram vistos apenas como mediadores de políticas públicas, ampliam seu leque de atuação, tornando-se agentes de desenvolvimento rural, atuando na resolução de conflitos e em mudanças tecnológicas. As dúvidas, constantes nas falas dos alunos, tornam-se material de reflexão, incorporando-se à metodologia dos futuros profissionais, que passam a perceber na formação dialética caminhos criativos para o exercício da assistência técnica no campo.