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Preocupações com o meio ambiente e dietas balanceadas impulsionam a pesquisa e a inovação, temas que vão ganhar, cada vez mais, as arenas de discussões internacionais, como a Cúpula Mundial de Sistemas Alimentares, a ser realizada pelas Nações Unidas

Consumidor é protagonista da agricultura do futuro

Roberto Rodrigues, Guy de Capdeville, Gabriel Delgado e Elaine Bottine
Roberto Rodrigues, Guy de Capdeville, Gabriel Delgado e Eliane Bottesine 

Brasília, 26 de março de 2021 (IICA) – No quinto e último dia da Semana Internacional de Agricultura Tropical – AgriTrop2021, que teve como tema Inovação e o futuro da alimentação mundial: uma rota para a sustentabilidade, especialistas apontaram o consumidor como farol da agricultura do futuro. keynote speaker que abriu a última sessão, Marcos Fava Neves, professor Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), falou sobre o macroambiente que influencia as cadeias produtivas do agro atualmente: político, econômico, social e tecnológico.

Para ele, a mudança no perfil dos consumidores é duradora e envolve preocupações crescentes com desperdício; inclusão socioeconômica, valorização da alimentação balanceada e saudável, bem-estar animal, engajamento coletivo, confiança na ciência e o apoio à produção local.

Na sessão de encerramento do evento, Gabriel Delgado, representante do IICA no Brasil, propôs que o AgriTrop se torne um encontro periódico. “Acredito que o evento organiza as discussões não somente regionais, mas também em todo o mundo”. Para ele, os debates colocaram luz sobre as estratégias, discussões e decisões que precisam ser implementadas no futuro.  “O Brasil pode liderar a agricultura tropical em boa parte do planeta”, afirmou.

Durante toda a semana, especialistas de vários países da Europa, África e América Latina se reuniram para compartilhar expertises sobre sistemas alimentares, convergência das agendas agrícola e ambiental, além de desafios e inovações relacionados ao futuro da alimentação mundial.

Organizado pelo IICA e pela Embrapa, o evento homenageou o ex-ministro da Agricultura do Brasil, Alysson Paolinelli, um dos mentores da Agricultura Tropical, indicado para o Prêmio Nobel da Paz 2021. Outro objetivo foi recolher subsídios para a Cúpula Mundial de Sistemas Alimentares, das Nações Unidas, marcada para setembro, na qual, por meio do diretor-geral, Manuel Otero, designado um dos champions da Cúpula, o IICA terá um papel importante. O Instituto vai organizar um dos componentes estratégicos do evento e fomentar debates a serem realizados até o encontro de líderes.

Virada Tecnológica

Em sua palestra na última sessão do AgriTrop, o diretor de Inovação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Cleber Soares, falou sobre a agenda de inovação do governo brasileiro para a agricultura com horizonte até 2025. Segundo ele, até os anos 1990, mais de 70% do fator que explicou o incremento de produtividade foram terra e trabalho e menos de 25%, tecnologia. “Na virada do século, esses indicadores mudaram a ponto de hoje o fator tecnologia explicar mais de 80% dos incrementos de produtividade”, disse.

Por isso, segundo Soares, o Ministério da Agricultura possui uma agenda com cinco eixos estratégicos que chama de B2, para se referir a uma “agricultura cada vez mais agrobiodigital”.

De acordo com Soares, o primeiro eixo é a sustentabilidade e o segundo, a bioeconomia, pois, segundo ele, mais de 70% da alimentação do mundo está sustentada por nove culturas agrícolas e, dessas, nenhuma tem centro de partida no Brasil. “Em contrapartida, temos cerca de 20% da mega biodiversidade do planeta”, comparou.

O terceiro eixo agrícola do governo brasileiro é o digital, que, de acordo com o diretor de Inovação do MAPA, é ferramenta para promover a transformação do agronegócio com robôs e inteligência artificial. “O quarto eixo é a inovação aberta sob a lógica das parcerias “Precisamos conectar o agronegócio com outros setores produtivos”, explicou. O último eixo é o de alimentos com tecnologia.

Paulo Silveira, CEO da Food and Tech Hub, disse que o modelo de inovação na área de alimentos está bastante consolidado no Brasil e há expectativa de expansão para outros países da América Latina, como Argentina, Colômbia e México. Criado há pouco mais de dois anos, a ideia do hub é aglutinar food techs disruptivas para construção virtual de stakeholders. O principal objetivo do Food Tech Hub é facilitar a inovação aberta e, para isso, trabalha com parceiros públicos e privados de CT&I no Brasil e no exterior.

Ítalo Guedes, pesquisador da Embrapa Hortaliças, falou sobre um exemplo prático de inovação agrícola: as fazendas verticais para produção de hortaliças. O sistema permite produzir em locais fechados, e em centros urbanos, a partir de tecnologias como sensores de condições ambientais, iluminação artificial e cultivos sem solo. “As fazendas indoor não estão sujeitas a impactos climáticos ou a sazonalidade de culturas. Outra vantagem é o controle rigoroso de pragas, o que elimina a necessidade de defensivos químicos, e há reutilização de quase toda a água empregada, o que torna a prática ideal para cidades que sofrem com restrições hídricas”, explicou.

Financiamento de redes de inovação

Eugenia Siani, secretária-executiva do Fontagro, explicou o funcionamento do fundo regional para tecnologia agrícola, que financia plataformas e ecossistemas e conta com a participação de 14 países da América Latina e quatro do Caribe. “Nosso desafio é criar novos conhecimentos com tecnologia e inovação de maneira que possamos ter segurança alimentar e ajudar a reduzir a pobreza”, explicou. Segundo ela, atualmente há 167 plataformas de inovação. “Para nós, é importante formar sistemas agroalimentares do conhecimento, para sermos mais inclusivos do ponto de vista ambiental e da sociedade”. Ela explicou que o Brasil ainda não faz parte do mecanismo, mas que espera receber o país em breve.

A agro influencer e produtora de hortaliças, Camila Teles, CEO da FarmCom, ressaltou a importância de intensificar a comunicação sobre o agro brasileiro e a Agricultura Tropical e de combater fake news no setor. “Decidi defender o agro de inverdades nas redes sociais porque estamos em uma era em que as pessoas espalham as informações que elas acham mais coerentes e as transformam em conhecimento com suas próprias conclusões”, disse.

Para ela, o risco é que as novas gerações do agro sejam influenciadas de forma errada, com informações sem comprovação. Uma das consequências da desinformação, avaliou, tem sido desconectar a agenda do agro dos conceitos ligados à sustentabilidade. “Sustentabilidade tem que ser uma palavra que ande ao lado da palavra agropecuária”, enfatizou.

Para o coordenador de Agronegócios da FGV, e ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, o evento que prestou tributo a um dos fundadores da Embrapa foi baseado exatamente nos dois eixos que Paolinelli legou: a valorização da ciência e da tecnologia. “Ambos fazem parte do DNA dos organizadores deste evento: a Embrapa e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura – IICA”, ressaltou.  

O diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Guy de Capdeville, ressaltou que é objetivo do Brasil estreitar parcerias com países vizinhos para transformar a América do Sul em um celeiro para a produção de alimentos.

Mais informações, links e resumos das sessões em:  www.embrapa.br/agritrop21